Aneurisma cerebral e acidente vascular cerebral (AVC)

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Quando uma pessoa conhecida ou famosa tem uma doença grave, que leva a consequências sérias, a mídia produz uma avalanche de notícias, muitas vezes fantasiosas e especulativas, e há uma comoção geral, mesmo que essa pessoa não seja das mais bem vistas pela maioria das pessoas. Além disso, o senssacionalismo gera uma preocupação geral: será que eu tenho isso também?

Pois bem, foi exatamente isso que ocorreu coma ex-primeira dama, Dona Marisa Letícia, mulher do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, que faleceu recentemente. E muita gente tem me perguntado: o que é um aneurisma cerebral? É comum? Quais os sintomas?

Por essas razões, resolvi escrever sobre o assunto…

O que é um aneurisma cerebral?

Aneurisma, independente da sua localização, é uma dilatação de um vaso sanguíneo, sobretudo uma artéria, e que pode levar a consequências e sintomas muito diversos, dependendo de onde está este aneurisma. Os aneurismas são causados por enfraquecimento das artérias.

Aneurismas cerebrais, como o próprio nome sugere, está localizado numa artéria cerebral, um órgão que dispensa apresentações e também desnecessário dizer da sua importância, embora nem sempre bem aproveitado por muita gente…

Aneurismas cerebrais são comuns?

Não existem estudos confiáveis no Brasil, mas estima-se que os aneurismas cerebrais ocorram em 1,5 a 5% das pessoas e entre 0,5 e 3% destas pessoas portadoras de aneurismas, vão apresentar sangramento. Se pensarmos globalmente, apesar de serem números bastante relevantes em termos de “quantidade de pessoas portadoras aneurismas cerebrais”, a consequência mais séria, ou seja o sangramento, é proporcionalmente baixo. Portanto não há motivos para alarme.

Quais as causas dos aneurismas cerebrais? Alguém nasce com aneurisma no cérebro?

Geralmente os aneurismas não são congênitos, ou seja, não nascemos com os aneurismas. De maneira geral, eles aparecem após os 40 anos de idade e se desenvolvem nos pontos de constante pressão exercida pelo sangue circulante; são muito comuns nas ramificações das artérias.

Em geral eles aumentam lenta e progressivamente, tornando os vasos menos resistentes à medida do seu crescimento.

Ocasionalmente existe uma predisposição familiar.

Existe importância o tamanho e localização dos aneurisma?

Sim, o tamanho do aneurisma é de extrema importância para seu prognóstico e quanto maior o aneurisma, mais risco de ocorrer um sangramento. Existem classificações quanto à proporção dos aneurismas, que são muito mais importantes para nós médicos, pois indicam a necessidade de tratamentos específicos.

  • Aneurismas pequenos: menos que 5mm de diâmetro
  • Aneurismas médios: 6–15 mm de diâmetro
  • Aneurismas grandes: 16–25 mm de diâmetro
  • Aneurismas gigantes: mais que 25 mm de diâmetro

Quanto à localização, eles também são bastante variáveis e muitas vezes inacessíveis ao tratamento.

Quais os sintomas dos aneurismas cerebrais?

Os aneurismas cerebrais íntegros, ou seja, aqueles que não sangraram, muitas vezes não provocam sintomas, sobretudo os aneurismas pequenos.

À medida que estes aneurismas aumentam, eles podem provocar compressão ou empurrarem estruturas cerebrais e podem gerar dores de cabeça, visão turva ou dupla, perda de força muscular no braço ou perna, dificuldade de memória ou fala e até mesmo convulsões.

Quais as consequências do sangramento dos aneurismas cerebrais?

O pior cenário para uma pessoa portadora de um aneurisma cerebral é quando há um sangramento provocado pela ruptura deste aneurisma, muito conhecido como AVC ou acidente vascular cerebral, neste caso, hemorrágico.

Quando ocorre o sangramento, geralmente ele é acompanhado por dor de cabeça muito intensa, súbita, náuseas e vômitos, sonolência que pode chegar até coma.

O sangramento ou AVC pode provocar lesões diretas no cérebro que podem ocasionar paralisias, alterações na visão e na fala, convulsões, etc.

Como o sangramento é confinado ao crânio, ou seja uma estrutura fechada, o sangue provoca um aumento muito rápido da pressão intra-craniana, que é, em última instância, a principal responsável pelas consequências desastrosas dessa doença.

As chances de morte desencadeada pelo sangramento de um aneurisma cerebral são de 30 a 40%, e as chances de uma lesão moderada ou grave são de 20 a 35%, mesmo que a pessoa seja socorrida rápida e adequadamente. Mas nem tudo é completamente desanimador, existem casos com sangramentos consideráveis que não deixam sequelas nas pessoas acometidas, mas infelizmente não são a maioria.

Como se faz o diagnóstico de um aneurisma cerebral?

Os aneurismas cerebrais só podem ser detectados adequadamente através dos chamados exames de imagem, específicos para o crânio.

Os mais comuns são a tomografia computadorizada e a ressonância magnética, que são modalidades de exames que permitem analisar o cérebro e suas estruturas através de cortes ou fatias do cérebro. Para que sejam mais sensíveis, esses exames necessitam de um destaque das artérias cerebrais, o que é conseguido através da injeção de contraste na veia do paciente. Existem diferenças quanto aos tipos de contraste e as nuances técnicas entre estes dois exames, entretanto, ambos podem fornecer bons detalhes e identificar aneurismas tão pequenos quanto 3mm de diâmetro, desde que tecnicamente bem realizados e interpretados.

Existe ainda um exame, mais sensível ainda que a ressonância magnética e que a tomografia, chamada angiografia cerebral, entretanto este é um exame bem mais invasivo, onde é necessária a injeção de contraste diretamente nas artérias cerebrais através da inserção de um cateter introduzido pela virilha do paciente (cateterismo cerebral). Este exame geralmente é reservado para situações especiais, para casos duvidosos ou como planejamento do tratamento quando o aneurisma é conhecido.

Como é o tratamento para os aneurismas cerebrais?

Cada aneurisma é único, portanto o tratamento deve ser individualizado, levando-se em conta a localização e tamanho do aneurisma, assim como os sintomas e condição clínica do paciente. Existem aneurismas em certas localizações e com certa morfologia que são impossíveis de serem tratados.

Entretanto, deve-se fazer todo o esforço possível para tratar aneurismas que já sangraram, pois o risco de novos sangramentos é muito alto.

Observação clínica

Como regra geral, aneurismas pequenos e assintomáticos, aqueles que geralmente são achados acidentalmente por uma tomografia ou ressonância magnética, geralmente não requerem um tratamento invasivo, porém o seguimento deve ser muito cuidadoso, pois o crescimento destes aneurismas ou se eles começarem a produzir sintomas, pode exigir uma mudança de conduta e indicar a necessidade de um tratamento mais agressivo. Esses pacientes devem ter um controle rigoroso da pressão arterial, pois a hipertensão é um fator de risco para rotura dos aneurismas.

Embolização do aneurisma

Esta modalidade de tratamento é feita através de cateterização seletiva do aneurisma (por dentro do vaso – cateterismo cerebral) e liberação de estruturas metálicas dentro da dilatação da artéria, provocando a exclusão do aneurisma da circulação cerebral.

É um tipo de tratamento indicado para alguns tipos de aneurismas, não todos, dependendo da anatomia e localização da dilatação da artéria.

É considerado um tratamento minimamente invasivo, proporcionando um tempo de recuperação curto, quando comparado com a cirurgia aberta.

Cirurgia e clipagem de aneurisma cerebral

A cirurgia aberta, ou seja, com a exposição do cérebro e do aneurisma, é uma forma de tratamento consagrada, entretanto, é um procedimento de grande porte e exige uma equipe muito bem treinada para que o tratamento tenha o sucesso esperado. A opção por esta modalidade de tratamento, atualmente, depende fundamentalmente da localização e da forma do aneurisma. Neste tipo de tratamento, é colocado um “clip” metálico na artéria doente, de modo que o aneurisma seja excluído da circulação cerebral.

 

Importante lembrar que o controle da pressão arterial, colesterol e os cuidados clínicos gerais de cada pessoa, devem ser uma regra para aqueles portadores de aneurismas cerebrais.

 

Espero ter contribuído para esclarecer os fatos sobre essa doença potencialmente tão grave. Mas sem causar alarme!

 

Fiquem à vontade para deixar comentários e sugestões. Até o próximo post!